Por que a maioria das empresas fracassa na implantação do e-learning?

O que deveria ser uma revolução na forma de capacitar e treinar pessoas, vem sendo, na verdade, uma grande decepção para as empresas - pelos menos até agora. Mas há saída.

Embora algumas instituições tenham alcançado relativo sucesso na implantação do e-learning, a grande maioria ainda não conseguiu ver resultados mensuráveis. Mas por que isto ocorre? O que aconteceu com a promessa de reduzir relativamente o custo em treinamentos, oferecer uniformidade e agilidade no fluxo de informação, além de proporcionar mais flexibilidade no tempo e ritmo do aprendizado? Alguns especialistas dizem que a principal razão é a resistência cultural por parte da atual geração de pessoas e o modelo mental desenvolvido nelas até os dias de hoje, habituadas aos cursos presenciais. A prova desta teoria, segundo estes especialistas, é a dificuldade que a maioria das pessoas tem para administrar o seu tempo ao se prepararem para estudar por conta própria. Será mesmo assim?

Parece-me que quando colocamos estes obstáculos, estamos, de certa forma, ofuscando uma falha maior por trás de uma justificativa simplória. E nesta, especificamente, apontamos o público-alvo como principal responsável. Claro, é muito mais fácil culpar um grupo, sugerindo uma causa generalizada, do que reconhecer que existe uma alternativa que ainda não foi descoberta.

Na verdade, chega a ser irônico constatarmos que o e-learning ainda não decolou pelo fato de que há muito "desconhecimento" acerca dele próprio, que tem como objetivo maior justamente ajudar na construção de novos conhecimentos. E mais: o desconhecimento se estende desde os players deste mercado até os responsáveis pela compra e implantação de soluções nas empresas.

Um pouco de História

Para diagnosticar melhor as fontes de desconhecimento, é importante recordarmos alguns fatos importantes que marcaram a chegada do e-learning no Brasil.

Eu já trabalhava com CBT (Computer Based Train) em 1995 quando ouvia rumores nos Estados Unidos sobre treinamentos multimídia que começavam a utilizar recursos de WEB, em função da facilidade de atualização e entrega do conteúdo, bem como da integração entre as pessoas, através das chamadas redes colaborativas de aprendizagem. Evidentemente, os recursos multimídia eram limitados em função da conexão de internet girar em torno de 9Kb/s. Porém, o grande negócio que começávamos a fazer era entregar o conteúdo em CD-ROM e, a partir dele, enviar dados pela WEB.

No entanto, isto ainda não era e-learning, pois este enxerga a aprendizagem de forma sistêmica. Logo surgiriam três segmentos específicos neste novo mercado: empresas de conteúdo, de sistemas e integradoras.

As empresas de conteúdo se dividiam entre aquelas que desenvolviam cursos customizados e as que representavam conteúdos prontos de grandes universidades e outras instituições. As de sistemas apresentavam soluções inteligentes para o gerenciamento de aprendizado, chamados de LMS (Learning Management System). E as empresas integradoras ofereciam o serviço de consultoria na implantação de sistemas e implementação de conteúdos.

Paralelamente, as novidades tecnológicas levavam os clientes pioneiros, que já utilizavam o CBT (CD-ROM), a migrar para a WEB. As que primeiro se destacaram utilização inteligente do e-learning foram, sem dúvida, as próprias empresas de tecnologia, sendo que algumas contribuíram para o aperfeiçoamento e até mesmo para o surgimento de novas soluções. A adaptação destas organizações foi bem mais fácil à nova cultura de aprendizagem em função da própria natureza do negócio.

A bolha, o gato e a lebre

Tudo estava indo muito bem no começo e o e-learning começava a estender seus braços para outros setores da economia, até que aconteceu um fato que pegou muita gente de surpresa: o estouro da bolha da internet.

Até então, existia um mercado que em dois anos havia crescido vertiginosamente, com uma grande oferta de produtos e serviços pela WEB, visando lucrar com a onda de comércio eletrônico. Porém, o que apareceu não foi uma bigwave, como dizem os surfistas, e sim uma marola... Frente a esta decepção, os investidores cortaram o dinheiro e as empresas de serviços para WEB e “pontocom” que não foram compradas, quebraram ou partiram para outras atividades similares ao negócio de WEB - um deles foi o e-learning.

Começa aqui o pesadelo. De repente, diversas destas empresas, que antes desenvolviam sites e sistemas diversos para WEB, estavam oferecendo conteúdos, sistemas e pasmem, até mesmo, consultoria para projeto de implantação. Tudo isso, sem possuir a menor competência para tal.

Naturalmente, diversas organizações que vinham sendo atraídas pelo e-learning esbarraram com estes “novos players” que, aproveitando-se do pouco conhecimento do cliente, até mesmo em função da novidade, vendiam soluções paliativas e caras por uma falsa promessa.

A reação não poderia ser pior... Até hoje, todo profissional sério do segmento de e-learning tem que tomar muito cuidado ao abordar um novo cliente, tamanho o desgaste que sofremos ao longo dos últimos três anos, suficiente para frear este mercado.

SOBRE A RESPONSABILIDADE DE QUEM COMPRA

Então, a resposta ao fracasso está no desconhecimento de fornecedores? Em parte, mas isso não é totalmente verdadeiro. Ao lado da imaturidade de quem vende, está também a imaturidade das organizações que consomem esses produtos. Estas últimas precisam adquirir o conhecimento necessário para estabelecer critérios de avaliação e escolha das soluções que melhor se encaixem às suas necessidades. Ou devem recorrer a especialistas para tal, economizando frustrações, tempo e dinheiro.

Indo mais fundo, noto que quase sempre as decisões pela escolha das melhores soluções ficam sob responsabilidade de um único profissional, que muitas vezes não possui as devidas competências para fazer a análise e homologação. Sei que essa afirmação pode até doer em alguns gerentes de RH e T&D, mas o meu propósito neste artigo não é outro senão esclarecer e levar à reflexão, gerando massa crítica sobre o tema.

Assim, ao invés de procurar apoio, ele acaba tentando resolver tudo sozinho, com medo, muitas vezes, de que venha a ser cobrado por alguma “falta de conhecimento”. Isto caracteriza o típico comportamento de centralização de informação, represada por interesses próprios, e que pode prejudicar todo o público interno e até mesmo o desempenho da companhia.

Obviamente, mais cedo ou mais tarde, a verdade acaba aparecendo, porém a que custo para a empresa? Sem mencionar que o tempo perdido dificilmente é recuperado frente à concorrência, que aproveita a vantagem oferecida. E esta vantagem torna-se ainda mais significativa se a concorrência estiver fazendo as escolhas corretas das soluções em aprendizagem...

Assim, o verdadeiro líder de um projeto de EAD, seja ele pertencente à área de RH ou T&D, deve ser um prisma para disseminação de conhecimento e não um funil. Felizmente, percebo que estes líderes estão procurando conhecer mais profundamente as tecnologias existentes para saber diferenciar o que é uma solução de fato do que é simplesmente “vapor”, além de estarem mais abertos a ajudas externas de profissionais experientes, já que não é fácil estabelecer parâmetros de comparação. É preciso estar bem atualizado, são muitas as novidades e termos técnicos envolvidos.

Concluindo e Avançado

Para concluir, acredito que todo e qualquer fracasso que tivemos e teremos em EAD deve ser visto como uma oportunidade para o aprendizado, tanto de fornecedores como consumidores. Afinal, apesar dos dissabores, há excelentes profissionais no mercado de e-learning, que amadurece rapidamente. Esperamos ser parte disso: se esta coluna conseguir agregar benefício para aqueles que lidam com desenvolvimento de pessoas e estão à procura de soluções criativas e inovadoras em EAD, terá cumprido seu papel.

Pensando neles e pensando em todas as dificuldades encontradas no momento de escolher uma solução de e-learning, montei um passo-a-passo com sete questões que poderão ajudar muito na escolha de sistemas e parceiros para um projeto de e-learning. Interessado? Então não perca o próximo artigo! Até lá!



<< Anterior     1 | 2 | 3 | 4  | 5 | 6 | 7     Próximo >>

Copiright 2004 Smith Gestão do Conhecimento - Todos os direitos reservados                                                          < HOME